Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
Um futuro às escuras

Há notícias que se recebem com o mesmo entusiasmo que um pontapé na boca. Ninguém o deseja, mas decerto que deve doer e fazer mossa a quem apanha com um.

É mais ou menos isso que os portugueses devem sentir se, a partir de Janeiro, tiverem de pagar pelo menos mais 30% nas suas facturas de electricidade, como irá ser proposto pelo regulador. Esqueçam, por isso, a última subida de IVA de 6% para 23% nas contas da luz já em Outubro. Comparado com o que aí vem, este agravamento fiscal só serve para amortecer o corpo - ou melhor, o orçamento das famílias - para a próxima pancada. E que será ainda mais violenta, quando se somar a carga fiscal à factura. As medidas de austeridade estão assim a entrar na vida dos portugueses como pequenas tareias, que os estafam e derrubam a cada nova taxa, cada subida de imposto, cada agravamento de preços, cada corte de rendimento. O próximo aumento da factura eléctrica será só mais uma.

Embora a proposta de agravamento seja do regulador, será nas mãos do Governo que cairá a questão mais delicada: como aliviar esta conta antes de a cobrar? E como fazê-lo sem prejudicar as empresas que vendem a energia? Há muito que os portugueses deixaram de pagar o simples consumo de electricidade. Esta é apenas uma variável da factura, que inclui ainda subsídios e taxas adicionais que sobrecarregam a conta final. Em 1999 estes extras pesavam apenas 5% da factura - hoje chegam a 42%. É um vasto pacote de encargos que inclui uma série de variáveis, que vão desde os custos de produção de energia até às rendas aos municípios ou às despesas com os reguladores. E, com os sucessivos aumentos do petróleo, do carvão ou do gás natural, já este ano, tudo isso engorda o recibo da electricidade.

É um pequeno caldeirão que mistura ainda as compensações que o Estado paga às empresas comercializadoras, como a EDP. É, também para as contas públicas, um violento encargo financeiro - superava mil milhões de euros no final do primeiro semestre - e que a própria ‘troika' já exigiu que fosse revisto. Mas é aqui que pode estar o trunfo do Governo para atenuar a subida dos preços da luz. Se conseguir que a EDP aceite uma redução do valor e mesmo o deslizamento do prazo de pagamento dessa verba, adiando a data limite de 2017 para 2022, como pode ser negociado, irá garantir um alívio dos orçamentos das famílias portuguesas. Será, contudo, um alívio temporário. Para a EDP, é um emagrecimento das receitas que espera receber e que pode comprometer o seu valor futuro. E, quando se tem uma privatização em agenda, nenhuma desvalorização é desejável. Também para os consumidores será um mero analgésico. Ao adiar o pagamento dessas compensações às empresas do sector, o Governo estará apenas a empurrar o problema para debaixo do tapete. A factura pode aliviar agora, mas chegará mais tarde, sobrecarregando de novo as gerações futuras. Os próximos anos arriscam-se assim a ser um longo túnel. Mas com uma luz muito cara ao fundo.



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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
Sempre os mesmos palhaços

Não foi assim há tanto tempo. Em Maio deste ano, o economista Paul Krugman apontava o dedo arrogante às mais debilitadas economias europeias: Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha. Todos alunos muito mal comportados, que abusaram dos financiamentos a taxas favoráveis, que se endividaram para lá do aceitável e durante demasiado tempo e que nunca conseguiram estancar o sorvedouro de despesa pública que foi acumulando mealheiros vazios ano após ano. Conclusão, agora parte-se o porquinho e, em vez de dinheiro, os governos encontram ar. Ou, como dizia o professor Krugman, “está agora claro que a Grécia, a Irlanda e Portugal não poderão – e não irão – reembolsar as suas dívidas na totalidade”. Claro, foi-se o dinheiro, sobraram as dívidas.

 

Durante semanas sucessivas, as economias grega, irlandesa e portuguesa têm sido alvos fáceis das agências de 'rating' norte-americanas, que se atropelavam a ver qual descia mais e mais depressa as notações dos países e das suas empresas. 'Just for sport', assim parecia. E Portugal sofreu na pele - ou melhor, na reputação - os danos que as malvadas S&P, Moody's ou Fitch causaram com as suas notas caprichosas.

 

Agora foi a vez dos intocáveis Estados Unidos da América serem beliscados por um corte de 'rating' da S&P. E o que faz Paul Krugman? Vira o dedo às agências de 'rating' e chama "palhaços" aos seus analistas. Embora muitos o acusem de só agora se indignar com o (mau?) trabalho dessas agências, porque decidiram meter-se com a economia norte-americana, e de nunca ter tido a mesma atitude quando essas mesmas agências baixaram notações de países europeus como quem aplica castigos ao desbarato, Portugal incluído, a verdade é que não é a primeira vez que Krugman critica a sua actuação.

 

É certo que têm sido críticas brandas, muito brandas. Mas têm estado lá e deviam ter crescido mais, muito mais. Como quando, em Abril, em "A History of Poor Standards", o economista desconfia que "os analistas de 'rating' estão a tomar decisões erradas há muito tempo". Ou quando, mais recentemente, em Julho, em "Moody's Blues", defende que, "quando a S&P ou a Moody's falam, não é a voz do mercado que se ouve. São apenas alguns tipos com uma agenda e um registo de informação muito pobre". E o pior, reforça o 'nobel' Krugman, "é que não temos a mais pequena ideia do efeito que as suas acções vão ter".

 

Pois bem, professor Krugman, para descobrir, basta dar umas voltas pela Europa ou, se não quiser ir tão longe, olhar bem perto, à sua volta. O circo há muito que está montado. Mas parece que só agora pegou fogo.

 

P.S. - Se alguém precisar de ajuda (ou simplesmente de uma boa piada) para entender estas coisas do mercado e do financiamento, os Monty Python dão uma ajuda.

 



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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
A agenda de Álvaro

Álvaro Santos Pereira arrisca-se a ser o ministro mais bem intencionado deste Governo. A começar pelo elevado número de pastas que aceitou colocar sob a sua alçada. Experimente ler as pastas da Economia todas de seguida – emprego, energia, transportes, obras públicas, comunicações, turismo, desenvolvimento regional, empreendedorismo, competitividade e inovação – e agora, respire. Sim, são muitas e só as primeiras quatro são de tirar o fôlego a quem tiver de as gerir nos próximos tempos, tendo a conta a urgência de medidas a aplicar em cada uma delas. ‘Troika oblige’.

Ontem, durante quatro horas, o ministro sentou-se no parlamento para revelar à nação os seus planos para tantas pastas. Ou melhor, o seu plano de intenções para a economia. Porque, feitas as contas, Álvaro Santos Pereira foi mais expedito a apontar metas do que a explicar como lá chegar. Exemplos? Tome nota. O mercado português precisa de mais postos de combustível ‘low cost’. Boa ideia. Mas como pretende fazê-lo? Interferindo num mercado que já funciona de modo liberalizado? Oferecendo incentivos (com que meios?) a operadores privados para que alarguem a oferta? Ou mexendo nas regras da concorrência para que facilite licenciamentos e abertura de novos postos? Outra: Portugal deve exportar 50% do PIB no prazo de cinco anos, chegando a 70% ou 80% daqui a 20 anos e ainda diminuir as importações. Não podia estar mais de acordo. Mas como consegui-lo? Com que meios e infra-estruturas? E como vai incentivar as deprimidas empresas portuguesas a entrar nessa reviravolta?

A lista de (boas) intenções foi desfiada ao longo de quatro horas e podia continuar por estas linhas afora. São muitas e, para já, não passam disso: de intenções que o tempo dirá se são realmente boas ou apenas fogo de vista. Também é verdade que a primeira coisa que Álvaro Santos Pereira pediu aos portugueses quando entrou no ministério da Rua da Horta Seca foi tempo. Para conhecer os cantos à casa, agilizar a sua equipa, abrir os dossiers, organizar ideias, preparar uma agenda. E então tomar decisões. Porque, até agora, a medida mais importante (e impopular) que tomou foi o aumento dos preços dos transportes públicos – e isto porque o calendário da ‘troika’ já tinha marcado a ordem e a data. O pedido de tempo, contudo, é justo e está a ser-lhe dado. Mas não pode durar muito mais. E não pode depender apenas da ‘troika’. Álvaro Santos Pereira sempre foi obcecado pela estagnação económica do País e tem agora uma oportunidade única de o desencravar. Como o próprio já disse, “o pessimismo nacional é uma das indústrias mais bem sucedidas do país”. Mas nada se combate sem medidas reais – ou não passará disso mesmo: boas intenções.

 

 



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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
Um Jardim desgovernado

A troca de galhardetes entre Alberto João Jardim e Paulo Portas no último fim-de-semana não foi só lamentável. Foi só mais uma prova de que há uma ilha perdida no Atlântico governada por um homem que, demasiadas vezes, parece (e aparece) de cabeça perdida. Se assim não é, como explicar que um líder político suba a um palco para insultar de forma gratuita parceiros do seu próprio partido, atirando-lhes com acusações de “falsos”, “fariseus” ou “bando de vigaristas”?

 

É verdade que a visita do líder do CDS à pérola do Atlântico não foi pacífica – nem inocente. Entre os sorrisos e os discursos, ficaram os recados. E as acusações: ao descontrolo, ao excessivo endividamento, ao alto despesismo, a tudo o que vai atolando a pequena ilha num oceano de danos financeiros que o continente vai alimentando. Mas Portas sabia muito bem o que estava a fazer. O desgoverno de Jardim dá-lhe todos os argumentos para manter na agenda da coligação um tema fracturante. E, ao distanciar-se do líder regional do PSD, Paulo Portas quer provar que é um pilar, e não uma muleta, da aliança com os sociais-democratas. Mas também já devia saber que qualquer dedo apontado ao líder madeirense é devolvido com a violência de uma bofetada. Como sempre: quem se mete com Jardim, leva.

 

Já não há surpresas na Madeira. Todos os anos, o discurso populista e a atitude autoritária e arrogante de Jardim repetem-se. E reforçam-se. Uma atitude que até se poderia julgar legítima. Mas não é, sobretudo quando se trata do presidente de um governo regional que continua a reclamar mundos e fundos para a sua ilha, mas não se sujeita às regras e escrutínio de quem financia a sua gestão. Modelou uma máquina governativa à sua imagem e às suas regras, mas não a alimenta sozinho – exige isso de Lisboa, que depois acusa de se querer intrometer e atrapalhar o seu governo. É um líder ingovernável, apenas protegido pela insularidade.

 

Entre os desfiles de carnaval e o carnaval dos discursos políticos, Jardim tornou-se assim numa espécie de caricatura desgovernada que diz umas coisas que é difícil de levar a sério. O mesmo homem que, dentro de dois meses, volta às eleições para, como ontem reclamou, “ganhar com uma grande maioria”. É isso ou não poderá governar, avisa, e assim “vou embora da política”. Percebe-se a exigência: um homem habituado a governar sem oposição, sem escrutínio, dificilmente se habitua a novas regras. É o absolutismo – ou a desistência. Muitos madeirenses podem não gostar da ideia de ver o querido líder virar as costas à governação, mas num País governado pela ‘troika’, quantos menos exemplos de abuso, excessos, autoritarismo gratuito e violência verbal, melhor. O agora ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, em tempos achou interessante a ideia de dar a independência à Madeira, caso esta a quisesse. É a prova de fogo que Jardim nunca teve. Mas merecia.

 

 



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Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
A Europa dos pequeninos

O bom aluno está de volta à escola. O mesmo é dizer que Portugal está de regresso à mesa dos decisores europeus no papel do diligente aprendiz com os trabalhos de casa prontos e uma vontade imensa de provar que é capaz de contribuir para a salvação do euro. E por isso, quando Pedro Passos Coelho se sentar hoje na roda de líderes da Cimeira Europeia, estará pronto para alinhar nos planos e estratégias mais prometedoras para evitar a extinção do euro. Apesar das evidentes fraquezas da economia portuguesa, o Governo português não quer assumir o papel do mau aluno ou do queixinhas, como uma Irlanda ou uma Grécia, que não fizeram bem e a tempo os seus trabalhos de casa e que, mesmo assim, continuam a reclamar atenções e privilégios para sobreviverem.

 

Numa altura em que uma Europa (quase) inteira se encontra atrelada a uma Grécia pendurada no abismo, em que se questiona a esperança de vida do jovem euro, em que as grandes decisões se jogam como bolas de ténis entre Berlim e Frankfurt, as boas intenções já não chegam. A Europa estacou numa encruzilhada e precisa rapidamente de sair do estado de negação em que mergulhou para começar a decidir e aplicar as soluções mais difíceis. Uma negação que começa, por exemplo, no facto de a Europa ter dificuldades em admitir que a dívida grega pode nunca ser amortizada – que outro cenário se pode esperar quando essa dívida pode chegar a uns (ainda mais) trágicos 172% do PIB no próximo ano? Mas ainda não surgiu em público um dirigente europeu que assuma essa possibilidade, porque o medo de assustar os detentores da dívida e de acelerar um possível incumprimento é bem maior do que a coragem de assumir uma (quase) inevitabilidade. Afinal, assumir um problema costuma ser o primeiro passo para a cura.

 

A cimeira europeia arrisca-se assim a ser assim uma espécie de reunião de líderes encolhidos. Publicamente esticam as vozes para defender soluções que ajudem a salvar a moeda única e a unidade europeia. Mas, secretamente, as suas mentes estarão a pensar de que forma essas soluções os podem afastar de novos resgates, de cenários de falência ou de serem contagiados por uma tragédia grega. E, no caso português, mostrar medo não é opção: enquanto a Grécia estiver pendurada no abismo, Portugal não está a salvo de cair com ela – há uma linha de países presa ao fardo da dívida grega e a economia portuguesa é que a que está mais próxima de cair a seguir. Um por todos? Não. Neste caso, são mesmo todos por um.



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Domingo, 17 de Julho de 2011
O Diogo que parte. [e uma ideia que fica]

A primeira vez que estive com o Diogo foi em Maio de 1999. Recebeu-me no seu gabinete no Porto, colado à movimentada Boavista, onde na altura geria o Grupo Fórum e liderava um projecto recente: a revista Ideias & Negócios. Era suposto ser um encontro breve para o Diogo falar do evento que organizara para reunir empreendedores e investidores, ideias e capital. Marcámos para o final da manhã e a entrevista, que era suposto demorar menos de uma hora, esticou-se para lá da hora de almoço e tornou-se numa longa conversa de mais de três horas. E o pequeno artigo que tinha agendado na revista Visão sobre um encontro inédito de empresários em Espinho, acabou por crescer e por se tornar na história e perfil de Diogo Vasconcelos, o ‘bom rebelde’. Chamei-lhe assim, talvez inspirada pela personagem do filme ‘Good will hunting’ e na sua personagem central: um jovem genial, brilhante. E rebelde. Mas com causas, como o Diogo.


Foi uma longa conversa que terminou com a sensação de que ainda mal começara. E, em boa verdade, assim era. O Diogo alimentava as conversas com ideias sobre inovação, revelação, descoberta, mudança, acção, futuro. E as ideias eram, como sempre, o início de tudo. O início de algo maior. O futuro era um desafio e o Diogo desafiava todos a juntarem-se a esta ideia: uma ideia para mudar e para crescer. Ideias felizes. O Diogo podia passar horas a contar, em detalhes apaixonados, os projectos e pessoas que descobrira na sua última viagem, a última tendência que iria marcar os dias que ainda estavam para vir, o projecto genial que ele descobrira numa universidade qualquer no lado oposto do planeta, podia gastar madrugadas a trocar mensagens sobre tudo isso sem nunca se cansar. Uma conversa com o Diogo era assim uma viagem imensa, uma espécie de aventura de adolescentes que seguem pistas intermináveis para descobrir um tesouro.


E assim, o homem que por uma ironia feliz nasceu em pleno turbilhão de Maio de 68, foi deixando uma marca forte por onde passou. E a quem dele se aproximou. O pioneiro e visionário Diogo, que fundou a Federação Académica do Porto, que lançou publicações pioneiras sobre educação, ambiente, internet, que criou a Unidade de Missão Inovação e Conhecimento para colocar a inovação na agenda do país, que abriu portas a empreendedores, que criou pilares para uma sociedade do conhecimento e para um Portugal (mais) tecnológico e que, ainda agora, na Cisco, entre muitos outros projectos, criou o Dialogue Café, um espaço virtual que permite, por vídeo-conferência, que várias pessoas no mundo inteiro possam trocar ideias e experiências. O Diogo falava deste seu projecto como se um fosse um recreio gigante para gente crescida onde as ideias se levam (muito) a sério. Uma vez mais, ideias felizes. Foi com uma ideia assim que o Diogo me desafiou. Queria que a Ideias & Negócios crescesse, fosse algo maior, revelasse mais ao mundo. E foi assim, pouco mais de um ano depois de nos conhecermos, que acabei a trabalhar ao lado do ‘bom rebelde’, inspirada por um projecto em que a inovação, o risco, a ousadia, a liberdade se mostravam ao mundo. E o que fez o Diogo para desencadear isso? Lançou uma provocação para a rua. “Despeça-se já!” era o lema - e a causa - da Ideias & Negócios. (*)


A história de vida do Diogo está assim cheia de pequenas histórias que auspiciavam uma vida em grande. Uma vida maior, não fosse o destino abreviá-la tão fora de tempo. Tudo o que possa escrever, contar ou recordar aqui será por isso infinitamente pouco quando comparado com tudo o que ficou por dizer e por fazer. O Diogo partiu e é como uma conversa que fica a meio. Partiu deixando a sensação de que tudo ainda mal começara. Mas deixa-nos uma ideia. Muitas ideias. E um futuro inteiro para continuar.

 

...................................................................

 

(*) “Despeça-se já!” era uma provocação. Um desafio. Mais do que isso: era uma causa, um movimento, um empurrão para a mudança. As palavras do Diogo, no editorial da primeira edição da Ideias & Negócios são a prova disso. Um manifesto que não se pode perder. E que se devia lembrar todos os dias. Aqui fica, por inteiro.

 

[Diogo Vasconcelos, in editorial Ideias & Negócios | edição nº 1, Nov/Dez 1997] 

 

Demita-se da rotina e dos horários certinhos. Demita-se de tentar ser empreendedor com um patrão que tudo pode, quer e manda. Demita-se da vidinha de uma organização que não sabe acompanhar o ritmo alucinante da mudança. Demita-se de esperar. Demita-se de explicar ideias novas a quem só tem soluções antigas. Demita-se dos compromissos, dos jogos de interesse, das rivalidades internas. Demita-se dos adiamentos, dos sonhos por concretizar. Demita-se do talento não reconhecido, do esforço sem retorno.

Está disposto a mandar no seu próprio tempo? A perder férias certas e salário estável? A conviver com o stress? A dispor de parte do tempo que hoje dedica aos amigos, à(ao) namorada(o), à família? Então, é mesmo altura de dar o golpe de asa. Prepare o terreno. Lembre-se de Bill Gates, Michael Dell (Dell Computers), Marc Andersen (Netscape), Richard Branson (Virgin), Salvado Caetano e de tantos, tantos outros célebres ou anónimos. Como aqueles que damos a conhecer nesta e nas próximas edições da Ideias & Negócios. É esta raça de gente destemida e visionária que faz avançar o mundo. Olhe à sua volta o mercado está à sua espera. Aposta na sua ideia, no seu produto, no seu serviço. Quer mais e melhor. Acredita em si, na sua capacidade de inovação, no seu génio. Chegou a hora de assumir riscos. De testar a sua ideia. De angariar apoios, de construir parcerias, de criaruma rede de alianças e cumplicidades. Avise os amigos. Reúna esforços. Prepare-se para o embate inicial. É altura de por à prova as suas capacidades. O capital é importante, mas você é o principal activo. Enfrente-se a si próprio. Assuma a sua marca, marque o seu trajecto. Construa a sua liberdade. Crie a sua própria empresa. Chegou a hora de agarrar o destino com ambas as mãos. Boa sorte, boas Ideias & Negócios!

 

 

 



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Sábado, 25 de Junho de 2011
Um país em económica

Pedro Passos Coelho foi claro nos recados. Esqueçam as férias de Verão, senhores ministros, este ano é para deixar o sol na rua e trabalhar afincadamente na sombra dos ministérios, institutos e empresas públicas. E se pensam que as viagens em primeira classe ou executiva são para continuar, podem também tirá-las da lista: este Governo só viaja em classe económica, pelo menos dentro da Europa. Na sua primeira viagem a Bruxelas, onde se estreou entre os líderes do Conselho Europeu, o novo primeiro-ministro não foi um turista. Mas foi o primeiro membro do novo executivo a dar esse exemplo quando mandou trocar os bilhetes de avião para uma classe económica. E ontem deixou de novo o recado, caso ainda restassem dúvidas a alguém: “trata-se de um exemplo que prometi e que vou cumprir”.

 

Não é apenas Passos Coelho e o seu ‘staff’ que vão perder as mordomias das férias e dos voos em executiva. É o país inteiro que vai ter de se habituar a viver em económica: com salários mais baixos, impostos mais altos, artigos mais caros, férias mais curtas e mais, muito mais trabalho. Ou, como se diz em bom português, com o cinto mais apertado. O líder social-democrata sabe que não tem outro caminho. Há um plano da ‘troika’ para executar em alta velocidade e não tem mais tempo a perder – nem luxos a manter.

 

No seu regresso de Bruxelas, Passos Coelho mantém a austeridade na bagagem. Mas traz algo mais: uma promessa e um apelo. A primeira é a luz verde dada pela Comissão Europeia para que se antecipe uma parte relevante dos fundos estruturais a Portugal – uma medida que, a acontecer, servirá de providencial balão de oxigénio para muitos projectos que têm estado parados. A segunda é um novo apelo à banca para que continue a financiar a economia portuguesa – nem que para isso os bancos tenham de vender activos ou socorrer-se do fundo de 12 mil milhões que já está previsto no plano da ‘troika’.

 

Portugal está numa encruzilhada entre estabilidade e crescimento: tem pouco da primeira e ainda menos da segunda. E é nisso que o novo primeiro-ministro se terá de se concentrar a partir de agora: num plano para segurar a frágil estabilidade de que o país ainda goza e incentivar o crescimento urgente da economia. O país é agora uma espécie de avião estacionado numa economia turbulenta, lotado com portugueses sentados nos apertados e incómodos lugares de uma classe económica, que terão de trocar o champanhe e os ‘snacks’ por água lisa e ‘cacahuetes’, pelo menos durante os tempos mais próximos, e que precisa de combustível e orientações certas para levantar voo. E, claro, seguir a rota certa.



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Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
A campanha faz-de-conta

O estado de calamidade económica em que Portugal se atolou tornou-se no álibi perfeito dos líderes políticos. Após anos sucessivos de erros, atropelos e abusos, de pequenas facadinhas nas contas e na gestão do país, o crime é revelado – vamos agora apurar os culpados. Tem sido nisto que governantes demissionários e candidatos eleitorais andam entretidos há semanas: a apontar o dedo aos suspeitos do costume e a trocar acusações inconsequentes. Enquanto isso, os gabinetes ministeriais andam ocupados pelos senhores da ‘troika’ que, nesta fase, mais parecem uma equipa subcontratada para fazer em trabalho temporário aquilo que os governos anteriores se esqueceram de fazer ou fizeram mal.

 

Esta zanga de comadres políticas que se anda a exibir na praça pública não passa disso mesmo: de uma briga caprichosa e inconsequente. Primeiro, porque os culpados da crise há muito que estão identificados e nem por isso vão pagar pelas más práticas – esse custo já está a ser apresentado, em jeito de factura detalhada (e agravada), mas aos contribuintes portugueses. Depois, porque uma luta política que se preze devia contribuir com ideias e soluções para resolver os problemas mais urgentes da nação. Em vez disso, tem sido um debate oco e inconsequente, onde as poucas ideias acabam atropeladas dentro dos próprios partidos que timidamente se vão revelando à mistura com mais tirinhos eleitorais.

 

É este espírito de “faz-de-conta-que-estamos-empenhados-em-descobrir-uma-saída-para-o-país” que parece mover os políticos nacionais. Infelizmente, não os tem comovido o suficiente para que se entendam e passem do estágio do “faz-de-conta” para a fase do “isto-agora-é-mesmo-a-sério”. Nem mesmo os últimos apelos públicos de Cavaco Silva ou as influências mais discretas de Durão Barroso, pedindo consenso, unidade, entendimento – ou, numa palavra mais simples, juízo -, parecem ter sensibilizado as máquinas partidárias. O objectivo é chegar à meta em primeiro lugar no dia 5 de Junho e, com essa proeza, ganhar o direito (ou a possibilidade) de escolher os aliados e equipa governativa a seu bel prazer.

 

O problema é que, até lá, há decisões vitais que têm de ser tomadas. Entre elas, é imperativo que os principais partidos políticos assumam o compromisso público de que, seja qual for a combinação política que resulte das próximas eleições, o programa que está a ser decidido pelo FMI e pela União Europeia seja cumprido à risca. É isso ou, já se sabe, Portugal terá de esperar mais tempo pelo dinheiro.

 

É a primeira grande exigência que a ‘troika’ apresenta aos responsáveis políticos portugueses: entendam-se. Devia ser fácil dizer sim. Mas não. Em vez disso, continua o bate-boca político e juntam-se vozes críticas como a do social-democrata Alexandre Relvas, para quem, “nas últimas semanas, a elite política não esteve à altura das responsabilidades”. Mas será que, ao sugerir que o País ficará melhor servido com um futuro Governo formado por PSD, CDS e PS (como outras figuras também defendem), tudo muda e as brigas acabam e o país é governado em paz e prosperidade? Esta ‘troika’ partidária pode ser possível, até provável, mas há dúvidas sobre se será saudável ou viável. Se realmente é possível, então essa prova devia ser dada já. Sem mais ‘troikas’.



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Quarta-feira, 20 de Abril de 2011
Os cobradores sem fraque

O passeio ribeirinho, numa das entradas do ministério das Finanças, tornou-se na última semana numa espécie de corredor do poder, tal o entra e sai de ministros, secretários de Estado, economistas, fiscalistas e especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Central Europeu (BCE) e da Comissão Europeia. A rotina dos homens dos números, contudo, foi ontem quebrada por meia dúzia de palavras: um simples cidadão, Armando Cardoso, deixou ontem um pequeno cartaz à porta das Finanças, obrigando quem passava a abrandar o passo para perceber a mensagem que ali poisara no passeio. Escrito em inglês e em português, o texto era um “aviso ao FMI e ao BCE”. E deixava um apelo: “Não quero dinheiro que não é meu, nem sequer pagar empréstimos pelos erros dos outros. Quem roubou deve devolver. Quem cometeu os erros deve pagar por isso e quem permitiu o roubo e o desperdício deve ser castigado. Por favor, deixem-nos viver apenas com o que temos para ganharmos juízo”. Ponto final.

 

Os governantes portugueses são, para já, homens com sorte. Como Portugal (ainda) não é o faroeste nem está entregue a atiradores sem lei, ninguém se arrisca a sair para a rua coberto de alcatrão e penas só por ter enganado alguém ou por não pagar o que deve. É a sorte de José Sócrates e de Teixeira dos Santos, que se podem dar ao luxo de sair à rua sem esse tipo de adereços. Isto apesar da larga maioria dos portugueses – como revela a sondagem da Markest para o Económico e TSF – estar firme e convicta da culpa do actual Governo na situação crítica em que o País se encontra. Mas o povo é pacífico e, para já, limita-se a deixar recados bem educados às visitas e aos anfitriões.

 

Só que, fora de Portugal, investidores e entidades internacionais olham para os portugueses como se andassem polvilhados de alcatrão e penas. Por saberem que vivemos de bolsos vazios, que sobrevivemos com o que nos possam emprestar e que perdemos a capacidade, nos tempos mais curtos, de honrar as mínimas obrigações financeiras. É neste cenário de derrota e humilhação que a chamada ‘troika’ internacional se desdobra em reuniões com governantes, partidos, associações, sindicatos, especialistas. Os portugueses seguem esta novela diária de encontros sem saber como vai acabar – sabem apenas que vai acabar mal para o seu lado e, sobretudo, para a sua carteira. E, enquanto ela se desenrola, o que fazem os partidos? Afadigam-se a preencher vagas nas suas listas eleitorais, começam a afinar as máquinas para a campanha que se avizinha e trocam culpas e sarcasmos entre si, como se vivessem no conforto de um país próspero. Enquanto isso, perde-se tempo. E o País, todos sabem, até essa regalia perdeu. Os líderes partidários vão libertando apenas uma ou outra ideia para demonstrar que pensam no assunto, mas parecem estar a guardar as melhores propostas como se fossem trunfos de campanha. Se alguém ainda pensar que é a ‘troika’ que vai salvar Portugal, é melhor mudar de país: estes senhores só vêm abrir caminho a quem o fechou há muito tempo. Mas antes disso, é preciso que os portugueses – e quem os lidera – abram os olhos. E que ganhem juízo para merecerem o dinheiro que andam a pedir.



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